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Entre livros e histórias, programa da Uern transforma vidas há quase duas décadas

A literatura é um direito universal”

Com música e contação de história, iniciativa rompe distâncias e reafirma o direito aos livros como caminho de transformação social 

Dentro do ônibus, a equipe se acomodou com todo seu material, levando livros, figurinos, instrumento musical e, o mais importante, o propósito de apresentar a literatura e toda a sua magia para dezenas de crianças.

De Pau dos Ferros até o município de Encanto, destino final da caravana, são menos de 20 minutos de viagem. Ao se aproximar da Escola Municipal Professora Francisca de Assis Fernandes, já foi possível sentir a energia de quem aguardava, ansiosos, por esse momento. Vozes infantis cantavam animadamente, em uma espécie de “esquenta” para a experiência literária que viveriam dentro de instantes. E a recepção foi calorosa. A sala estava  lotada de meninos e meninas sentados no chão, com olhares atentos.

E chegou a hora da turma do Programa de Extensão Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas (Bale) entrar em cena. Com leitura? Ainda não. Primeiro, música. Muita música para agitar os pequenos, colocá-los em movimento e prepará-los para embarcar numa História sem Fim.

Em tom lúdico, a apresentação da obra literária infantil de Bia Bedran, misturou música, encenação, interpretação e, claro, deixou fluir a magia que só o universo literário é capaz de despertar de forma tão autêntica. 

Os pequenos encantenses ficaram encantados ao descobrir que, por meio da leitura, eles podem conhecer outros mundos, com diversas realidades. Em meio a euforia, todos comentavam, de forma espontânea e pueril, o quanto haviam gostado da atividade.

Depois da apresentação, a curiosidade já não podia ser contida. Era hora de tocar os livros, de escolher histórias, de continuar a viagem. Eles puderam conhecer uma variedade de livros infantis disponibilizados pelo Bale, em um momento de leitura que marcou o  final desta manhã cheia de descobertas.

Íris Viana conheceu o Bale ainda criança e construiu uma longa trajetória junto ao Programa. (Foto: Ênio Freire)

Da menina leitora à educadora

É assim que há quase duas décadas o Programa de Extensão Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas (Bale), desenvolvido pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Campus Pau dos Ferros, tem atuado no território potiguar e até fora dele, destacando o papel transformador do mundo das palavras.

Ao levar ações como essa para comunidades longínquas, que têm pouco ou nenhum acesso aos livros, o programa se configura como um instrumento de democratização da leitura, capaz de mudar a vida das pessoas.

Prova disso é a jovem Iris Viana. Alguns anos atrás ela conheceu a iniciativa  através de uma ação realizada em sua cidade, Portalegre. Íris já gostava de ler, mas a forma como as histórias foram apresentadas a conquistou de uma forma diferente.

“Na época, eu lembro que tinha uma Kombi que ia até Portalegre e ficava na praça. Lá aconteciam essas mediações e eu ficava encantada, porque não era só a leitura, eram as encenações, eram as músicas. Era todo um contexto que me encantava”, recordou. 

Participativa como era, logo foi chamada para integrar o projeto. Uma doce lembrança que ficou eternizada. “Até hoje eu tenho o certificado de participação guardado com muito carinho”, frisou.

Ali, sem que ela soubesse,  era o início de uma longa trajetória. A pequena Íris cresceu e, anos depois, resolveu cursar Pedagogia, com uma certeza em mente: “quando eu chegar na Uern eu voltarei para o Bale, porque ele marcou muito minha infância e adolescência”. E assim aconteceu.

Ela atuou durante toda a graduação e agora, já na pós-graduação, Íris continua desenvolvendo as atividades, com um propósito muito nobre. “Hoje, como uma profissional já formada em Pedagogia, eu quero continuar no programa para que eu também possa fazer com que as crianças se encantem cada vez mais pela literatura, assim como eu me encantei”.

As professoras Diana e Eridan se sentem realizadas em fazer parte do Programa. (Foto: Ênio Freire)

Quem planta histórias também se transforma

Nesse percurso de descobertas e transformações, muitas pessoas tiveram papel essencial na trajetória de Íris dentro do Bale. Entre elas, a professora Eridan Santos.

Presente desde os primeiros passos do projeto, ela percebeu o interesse de Íris pelos livros, e já vislumbrava nela um futuro. “Eu sempre dizia: Íris promete. E ela ria quando eu dizia isso. Hoje ela está aí. É uma prova viva do quanto o Bale transforma vidas”, declarou Eridan.

Mas os alunos não são os únicos beneficiados. As(os) baleanas(os), como são carinhosamente chamadas(os) as(os) agentes do programa, também são tocadas(os) diariamente. 

A própria professora Eridan relatou, com emoção, que se sente realizada em poder levar o universo da leitura a quem mais precisa.

“Eu vi nessa iniciativa uma possibilidade de fazer o que eu tanto desejava: de contribuir e ser agente de transformação através da literatura. Hoje eu tenho  certeza absoluta, pelos feedbacks que a gente recebe, que eu consegui o meu objetivo de impactar positivamente na vida das pessoas através do Bale, através da leitura”.

A professora Diana Saldanha, também uma das pioneiras do programa, se enche de orgulho ao comentar sobre sua experiência. “Falar do Bale me enche os olhos, pois eu me  vejo com o compromisso social de incentivar a leitura, algo que considero essencial. Então pra mim, como docente, participar dessa ação é muito satisfatório”.

Ela comenta ainda sobre a experiência de conhecer diversas realidades e, de alguma forma, poder oportunizar que essas crianças vivam algo diferente por meio da leitura.

“Quando chegamos a uma escola em que não há tanto acesso a livros, e vemos as crianças correrem todas de uma vez para participar daquele momento, é muito marcante, porque é algo que elas não vivenciam no dia a dia”, declarou.

Dessa forma, o Bale tem se consolidado como uma ferramenta fundamental na formação humana, atuando como um agente transformador ao permitir o contato com o universo literário, contribuindo para a inclusão e o acesso à cultura e à arte.

Mesmo diantes das inovações tecnológicas, o livro tem seu espaço e encanto (Foto: Ênio Freire)

O livro como desejo

Em tempos de telas e imediatismo das redes sociais, poderia se pensar que os livros perderam espaço e que já não despertam o entusiasmo no público.

Mas não é isso que se percebe em cada ação realizada pelo grupo. O interesse pelo livro existe, e por meio de estratégias, é criada uma conexão entre a história e os espectadores.

“Na sociedade atual, tão cheia de incentivos digitais, a gente ainda percebe que o livro físico tem muito valor, ele ainda é muito querido, ainda tem o seu encanto. E como a gente leva o livro físico e faz todas as estratégias de leitura, com encenação e música, isso contribui bastante para que a gente consiga conectar o leitor ao texto”, comentou a professora Francicleide Cesário, uma das coordenadoras do Programa.

Isso mostra que, mesmo diante das transformações sociais e tecnológicas, o livro ainda tem seu espaço e é, sim, objeto de desejo para aqueles que entendem o poder da literatura. Por isso, o Bale se fortalece continuamente na busca por desenvolver mais leitores em todos os lugares.

A resposta a toda essa dedicação do grupo é sentida por onde passam, seja pelo aplauso que explode com euforia ou pela espontaneidade dos sorrisos. 

“A gente sempre tem boa receptividade e a gente consegue perceber isso ainda no momento que a gente está lá, quando as próprias crianças vêm e nos abraçam, dizem que gostaram da história, quando participam e querem, no momento da contação, ser o personagem. A escola também sempre nos dá o feedback, dizendo que os professores gostaram, as crianças gostaram, o público gostou”, comentou Francicleide Cesário.

E o que ela diz, é confirmado na fala de Fátima Marcelino, diretora da Escola Municipal Professora Francisca de Assis Fernandes, em Encanto. “Trazer o Bale para nossa escola é muito significativo, é uma porta que se abre. Quando a gente olha para os alunos e vê eles todos entusiasmados, isso para a gente é maravilhoso, é uma experiência única”, frisou.

Mais que incentivar a leitura, o programa construiu uma trajetória que reafirma o papel social da Universidade (Foto: Ênio Freire)

“A vida é bela, e o Bale é belo.” (SANTOS, Eridan)

O Programa de Extensão Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas (Bale) nasceu em 2007, como projeto de extensão idealizado pelas professoras Maria Lúcia Pessoa Sampaio e Renata de Oliveira Mascarenhas. Vinculado ao Grupo de Estudos e Pesquisas em Planejamento do Processo de Ensino-aprendizagem (GEPPE), surgiu diante da carência de políticas públicas de incentivo à leitura, especialmente em comunidades periféricas de Pau dos Ferros. 

De forma ainda modesta, o Bale deu seus primeiros passos, levando exemplares de livros para os bairros São Geraldo e Riacho do Meio, onde rodas de leitura e contação de histórias aconteciam sob a sombra das árvores.

“A gente considera que essa é uma das ações que mais cumpre o papel da extensão universitária, que é de sair dos muros da universidade e fazer esse trabalho junto às comunidades. O Bale leva a educação para todos, em todos os espaços”, destacou a coordenadora do programa, professora Keutre Soares.

O que começou como uma iniciativa localizada ganhou força, ampliou horizontes e passou a alcançar outros municípios, até se consolidar, em 2012, como Programa de Extensão Universitária.

E lá se vão quase duas décadas rompendo fronteiras e vencendo desafios, sobretudo financeiros, que por vezes, dificultam na aquisição de materiais, figurinos e instrumentos musicais. Ainda assim, o propósito permanece maior: são mais de 68 mil pessoas atendidas e uma trajetória reconhecida por diversas pesquisas acadêmicas e premiações nacionais.

Entre os reconhecimentos, destacam-se o Troféu Viva Leitura (2008), promovido pela Fundação Santillana, Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação (MEC), além da Bolsa Funarte de Circulação Literária (2010/2011), que possibilitou ações como o “VivaBALE Nordeste – Sudeste” em Águas Vermelhas (MG).

Atualmente, o Bale se estrutura em seis grandes projetos: Bale em Cena, Cine Bale Musical, Bale Formação, Bale Net, Bale Ponto de Leitura  e Bale Mirim, este último com fomento da Fundação de Amparo e Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação do RN (Fapern). Além disso, mantém atuação contínua nos municípios potiguares de Francisco Dantas, São Miguel, Portalegre e Frutuoso Gomes.

A iniciativa também conta com bolsas de extensão e bolsas de estágio da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae/Uern), fortalecendo a participação dos estudantes. Porque, para seguir existindo, o Bale precisa de muitas mãos – e de muitos encontros.

Sejam em escolas, praças, comunidades, multiplicam-se os pedidos para que o Bale chegue, levando histórias, música e partilha.

Mais do que incentivar a leitura, o programa construiu uma trajetória que reafirma o papel social da universidade e amplia horizontes. E assim, como naquela manhã em Encanto, o Bale continua chegando, seja em um ônibus ou em forma de história, sempre carregando aquilo que não pesa, mas transforma: a literatura. Talvez por isso sua passagem nunca seja breve: ela fica, tanto na memória como no desejo de continuar. Porque, como diz a professora Eridan Santos, “a vida é bela, e o Bale é belo”.

PROJETOS

Bale Ponto de Leitura

Bale em Cena

Cine Bale Musical

Bale Formação

Bale Mirim

Bale Net

Fotos: Ênio Freire

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