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Uern celebra trajetórias de serviço à educação, à cultura e à sociedade

Uma universidade não ocupa apenas um lugar. À medida que amplia oportunidades, forma pessoas, leva conhecimento a diferentes regiões e se deixa transformar pela sociedade que a cerca, ela própria passa a fazer parte daquele território. Foi essa ideia de universidade — pública, social e comprometida com as possibilidades de vida das pessoas — que atravessou a homenagem a quatro personalidades nesta segunda-feira (28), durante a Assembleia Universitária que marca os 58 anos da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern).

Realizada no Teatro Municipal Dix-huit Rosado, em Mossoró, a solenidade reuniu a comunidade acadêmica, autoridades e familiares dos homenageados. Receberam distinções o ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) José Geraldo de Sousa Júnior, a técnica-administrativa Ridágna Zulmira de Almeida, o professor aposentado Francisco Hélio da Costa e o padre Francisco Canindé dos Santos.

José Geraldo recebeu o Título de Doutor Honoris Causa. Professor e ex-reitor da UnB, ele construiu uma trajetória ligada à defesa dos Direitos Humanos e é uma das principais referências do projeto “O Direito Achado na Rua”, que já resultou em uma série de dez volumes publicados.

Coube também a José Geraldo falar em nome dos homenageados. Acostumado, enquanto reitor, a ocupar o lugar institucional de quem concedia honrarias, ele contou que a experiência de estar do outro lado lhe permitiu compreender de outra maneira o significado de uma distinção universitária.

“Como reitor da Universidade de Brasília, presidi várias cerimônias de outorga. Acompanhei o rito universitário e toda a sua solenidade, vi homens e mulheres recebendo na universidade uma de suas mais altas distinções e, estando no lugar institucional daquele que conferia a honraria, procurei muitas vezes traduzir em palavras o seu significado”, lembrou.

Agora homenageado, disse experimentar pessoalmente aquilo que antes acompanhava como dirigente universitário.

“Hoje estou do outro lado e confesso que somente agora posso compreender inteiramente a emoção que tantas vezes li, porque uma coisa é proclamar, em nome de uma universidade, o reconhecimento de uma trajetória. Outra é experimentar pessoalmente o que significa ser acolhido por uma comunidade universitária e associar à sua própria história alguma coisa da história daquele que homenageia”, afirmou.

Para ele, a homenagem não deve ser entendida como ponto de chegada. “Recebo com profunda gratidão, mas também com um sentimento talvez ainda mais forte de responsabilidade”, disse. “Prefiro compreender esta decisão como um gesto voltado para o futuro.”

Foi a partir daí que José Geraldo ampliou a fala para refletir sobre o próprio papel da universidade. Segundo ele, poucas instituições atravessaram tantos séculos mantendo a capacidade de se transformar sem perder a vocação de reunir gerações em torno do conhecimento. Essa universidade, no entanto, não existe fora da História: realiza-se em lugares e sociedades concretas, diante de necessidades igualmente concretas.

“A universidade é uma mediadora estratégica do desenvolvimento social”, resumiu.

Desenvolvimento que, em sua fala, não se limita ao crescimento econômico. O conceito aparece ligado à ampliação das liberdades, à democratização das oportunidades, ao enfrentamento das desigualdades, à produção de ciência e tecnologia comprometida com a dignidade humana e à possibilidade de que as pessoas realizem seus próprios projetos de vida.

É nesse ponto que a experiência da Uern se encontra com a reflexão do homenageado. Para José Geraldo, a interiorização universitária representa mais do que a distribuição geográfica de cursos. É uma redistribuição concreta de oportunidades.

Muda quando um jovem que dificilmente poderia se deslocar para um grande centro encontra formação universitária perto de casa. Muda quando uma família vê, pela primeira vez, um filho ou uma filha chegar ao ensino superior. Muda quando professores formados pela Universidade chegam às escolas, profissionais da saúde alcançam comunidades e pesquisadores transformam problemas locais em questões científicas.

“A universidade, então, não está simplesmente no território; ela passa a ser território”, afirmou.

José Geraldo associou essa compreensão ao conceito de “universidade social”, destacando que não basta a instituição estar inserida em uma sociedade: é preciso que ela aceite ser interpelada pelo lugar onde está, transformando experiências, saberes e desafios locais também em matéria de conhecimento.

Nessa construção, acrescentou, excelência e inclusão não são ideias opostas. “É uma universidade que produz excelência sem fazer da excelência um mecanismo de separação e amplia o acesso sem renunciar à qualidade”, disse. Da mesma forma, democratizar a entrada é indispensável, mas democratizar a permanência é igualmente decisivo.

A técnica-administrativa Ridágna Zulmira de Almeida recebeu o Diploma de Mérito Administrativo. Servidora da Pró-reitoria de Ensino de Graduação (Proeg), ela teve participação direta em momentos importantes da vida institucional da Uern, entre eles os processos de recredenciamento da Universidade realizados em 2017 e 2023.

O Título de Professor Emérito foi concedido ao professor aposentado Francisco Hélio da Costa, cuja trajetória reúne docência e atuação administrativa. Ao longo da passagem pela Universidade, ele ocupou funções estratégicas, como Pró-reitor de Administração e Chefe de Gabinete da Reitoria, e, mesmo aposentado, mantém vínculo próximo com a instituição.

Já o Título de Professor Honoris Causa foi destinado ao padre Francisco Canindé dos Santos. Ordenado em 1965 e pároco em Assú até 2011, padre Canindé construiu parte importante de sua trajetória entre a atuação religiosa, a educação e a defesa ambiental no Vale do Açu. Por motivo de saúde, ele não pôde comparecer à Assembleia Universitária, mas a distinção foi entregue durante a solenidade.

Os homenageados receberam as distinções em um momento acompanhado também por seus familiares, aproximando o rito acadêmico das histórias pessoais que ajudaram a construir cada uma daquelas trajetórias.

Ao agradecer a homenagem, José Geraldo voltou ao ponto que atravessou seu discurso: uma instituição pública pode produzir conhecimento e excelência sem se separar da sociedade que a sustenta. Quando isso acontece, a presença universitária deixa marcas que ultrapassam seus prédios, cursos e diplomas.

“Como mediadora estratégica do desenvolvimento social”, sintetizou, a Universidade ajuda o território a transformar memória em projeto e possibilidade de futuro.

Medalha da Abolição reconhece três trajetórias

A Assembleia Universitária também foi marcada pela entrega da Medalha da Abolição 2026. Neste ano, receberam a homenagem a professora Isaura Amélia de Sousa Rosado Maia, o professor e promotor de Justiça Armando Lúcio Ribeiro e o servidor aposentado Almir da Silva de Castro.

Os três têm trajetórias diretamente relacionadas à educação, à cultura, à gestão pública e à própria história da Universidade.

Criada pela Lei Municipal nº 20/1968, a Medalha da Abolição é destinada a personalidades que tenham se destacado pela prestação de serviços à comunidade, especialmente nas áreas da educação e da cultura, em benefício da sociedade e da Universidade.

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